Ele e ela…

Janeiro 23rd, 2010

Chega a casa, senta-se. Segura o coração na mão, afundado na mancha verde da sua alma. Envolvente a música contígua, permite-o sentir, nada mais. O coração pouco bate, permanece frígido.

Aquece com ambas as mãos na tentativa de o reanimar. Fricciona. Espera. Atenta. Desespera. Não o consegue, pelo menos sozinho.

Chega a casa em choque. Ele está sozinho, tem nas mãos o coração. Abraça-o que chora. A dor não desaparece, é maior, quando está com ela.

A dor permanece e ninguém sabe porquê. O coração está pousado nas mãos, untadas a lembranças. Não o consegue largar. Tenta, em desespero, não pensar, apenas sentir. A antimetafísica é eficaz, a curto prazo.

A dor volta. O coração não a quer. Afasta-se lentamente, numa gradação que assola. O coração para, mas continua com eles. Para sempre.

Ele e ela. O Amor e a Saudade.

Não é em vão…

Janeiro 17th, 2010

Não escrevo em vão. Tudo me levava a acreditar que o fazia. Tudo que articulava não passavam de devaneios que nunca sentiram o doce sabor da existência reconhecida. Mas sei agora, tardiamente, que não escrevo em vão. Que as minhas palavras comovam, que aqueçam. Não faço delas a minha existência. Devem-me elas a sua existência.

Teço o meu discurso com um sorriso que não disfarço. Não é orgulho, não é vaidade. É saber… saber que o lês.

A noite pesa sobre os ombros,
Os olhos é que se queixam.
O cérebro quer escrever,
As mãos é que não deixam.

A mente enterra-se,
Os braços não mentem.
Os livros chamam,
Os ouvidos não sentem.

A cabeça cai,
O corpo estremece.
Acordo e faço um esforço,
É para minha benéce.

Viro o pescoço,
Distraio o pensamento.
Antes da tempestade chegar,
Aprecio este momento.

Raio do remorso…

Junho 9th, 2009

Sinto-me com remorsos… Não apenas de não ter estudado de manhã, mas pelo que disse. Saiu e foi interpretado de maneira errada. Generalizei falaciosamente, sabendo que tu não merecias. Foi um impulso, tudo devido ao remorso que inserias com perícia na minha cabeça. Sei perfeitamente que o que estavas a dizer teve uma segunda intenção, algo que aprendeste em psicologia talvez, mas foi algo que me estava realmente a atingir. Mas porra, tenho apenas uma semana, estava nervoso!

Rapidamente puseste um olhar sério e eu senti-me impotente, a tua capacidade de me fazeres sentir culpado é inigualável. Se pudesse voltar atrás, provavelmente diria “obrigado“. Como não posso, digo “desculpa“.

Desde que nascemos que criamos laços com todas as pessoas que nos rodeiam. Os nossos irmãos ensinam-nos o companheirismo, o nosso pai transmite-nos todos os valores e educação, a nossa mãe transmite maioritariamente o carinho e a segurança. Os laços criados com a nossa família moldam a nossa personalidade e formam o nosso carácter. Não crescemos altruístas porque sim. Crescemos altruístas porque desde cedo aprendemos que a felicidade dos outros tem tanta importância como a nossa. Os laços que em petiz achavamos que nos sufocavam conduzem-nos à vida.

Quando sentimos falta de uma peça no puzzle, os laços deixam de se entrelaçar e estamos por nossa conta. A vida, injusta como ela é, deixa-nos à deriva agarrados aos nossos valores. Procuramos, inicialmente, a nossa felicidade. É fácil de encontrar, é difícil de manter. Tudo deixa de fazer sentido quando olhamos para trás e reparamos no vazio que ficou, algo inatíngivel fisicamente. A mente prega-nos uma partida: a nossa felicidade nunca será mantida.

Resta-nos o altruísmo dos outros, a sua tentativa inocente, por vezes inconsciente, de nos ver sorrir, de nos ver felizes. Eu tento agarrar as oportunidades, mas o meu altruísmo impede-me. Encosta o meu egoísmo a um canto com toda a sua garra e tenta… tenta fazer outrém feliz! Mas devo-me culpar por ser altruísta por demasia? Ou o meu altruísmo é espelho de um ainda maior egoísmo?

A mente coloca-me numa realidade adversa, onde as minhas prioridades se invertem. O meu altruísmo foi agora esmagado pelo meu egoísmo que retaliou, sem que eu soubesse. Acordo para a realidade. Olho para trás, o vazio mantém-se. A mente compõe-se. A felicidade corre a meu lado, só preciso de a saber acompanhar. Estico a  mão na tentativa de a agarrar e… consigo! O que era inatíngivel fisicamente, tornou-se atingível espiritualmente. Forma-se uma simbiose entre o nada e o tudo, onde nada se torna o tudo e o tudo se torna o nada.

Redefino as minhas prioridades. Faço as pazes entre o egoísmo e o altruísmo. Olho para trás e não vejo um vazio. Vejo tudo.