Tentamos

Fevereiro 5th, 2010

Cabelos que pairam com o vento
Mistério, tua epressão inacabada
És solo que piso neste momento
Suporte da minha alma enferrujada.
Dúvida que fica, permanece
Lágrimas de um coração petrificado
Sonhos cheios de quem não esquece
Um futuro em chão fraco edificado.
Abraça-me, diz-me, onde estou?
Sigo a linha do Fado, onde vamos?
Esquece o amargo trilho que para trás ficou
Não podemos dizer que não tentamos.

Diogo Pinto

Ele e ela…

Janeiro 23rd, 2010

Chega a casa, senta-se. Segura o coração na mão, afundado na mancha verde da sua alma. Envolvente a música contígua, permite-o sentir, nada mais. O coração pouco bate, permanece frígido.

Aquece com ambas as mãos na tentativa de o reanimar. Fricciona. Espera. Atenta. Desespera. Não o consegue, pelo menos sozinho.

Chega a casa em choque. Ele está sozinho, tem nas mãos o coração. Abraça-o que chora. A dor não desaparece, é maior, quando está com ela.

A dor permanece e ninguém sabe porquê. O coração está pousado nas mãos, untadas a lembranças. Não o consegue largar. Tenta, em desespero, não pensar, apenas sentir. A antimetafísica é eficaz, a curto prazo.

A dor volta. O coração não a quer. Afasta-se lentamente, numa gradação que assola. O coração para, mas continua com eles. Para sempre.

Ele e ela. O Amor e a Saudade.

Fadas do pensamento

Janeiro 20th, 2010

És pó, és formiga
És senhora do momento
És questão que me intriga
És nada ao sabor do vento
És cola que me liga
És fada do pensamento

Frases reticentes

Janeiro 20th, 2010

Quentes, implacáveis, destemidas, displicentes… Frases reticentes! Nada inocentes…

Não é em vão…

Janeiro 17th, 2010

Não escrevo em vão. Tudo me levava a acreditar que o fazia. Tudo que articulava não passavam de devaneios que nunca sentiram o doce sabor da existência reconhecida. Mas sei agora, tardiamente, que não escrevo em vão. Que as minhas palavras comovam, que aqueçam. Não faço delas a minha existência. Devem-me elas a sua existência.

Teço o meu discurso com um sorriso que não disfarço. Não é orgulho, não é vaidade. É saber… saber que o lês.

Falhei…

Janeiro 14th, 2010

Promessas não cumpridas desmoralizam-nos. Sinto a cabeça pesada de pensar no que cumpri até hoje.  Sinto-me um jovem tartufo. Tudo aquilo que terei dito não passaram de palavras vãs, articuladas por preposições simples. Falhei.

Os meus objectivos eram simples, nada impossíveis. Estou a tempo de lutar, tenho um punho de ferro… Bato na mesa! Grito, esmurro a caneta que parte! Pontapeio a parede e reparo… Reparo que nada mexeu. O mundo continou a girar. A parede intacta, a caneta reduzida a uma total inutilidade… Não encontro ordem no caos.

Encontro-me num caminho largo que atravesso a passadas largas. As pernas vão o mais esticadas possíveis… É melhor abrandar. Não quero voltar… voltar a falhar.

O poder da análise

Setembro 9th, 2009

Quando olhamos para o fundo do nosso coração, algo que nos parece impossível para algo tão fisicamente pequeno, damos de caras com a imensidão da nossa inocência. Somos, acima de tudo, grãos de pó. Significantes, mas grãos de pó.

O passado apenas nos indica, cada vez com mais clareza, o caminho que temos para percorrer: um caminho que leva à auto-destruição inevitável. A nossa significância leva-nos a isso. Somos grãos de pó destruidores, e o mundo não aguenta com todos.

“Sou significante” – disse o grão de pó…

São os pequenos gestos…

Julho 16th, 2009

Apoiada sobre a bengala, com dois olhos azuis penetrantes, vinha de encontro a mim com cara de sofrimento. O rosto sugestivo de um enorme esforço força-me a abordagem, enquanto faço um sinal a conceder a passagem: “Faça favor… A senhora está bem?”. A expressão mudou, a sua boca havia formado desta vez um sorriso e o brilho nos olhos foi notório. Agradece-me e segue o seu caminho, ainda com o seu peso apoiado na bengala. Mas eu sigo, desta mais leve, e a imaginar o que um simples gesto foi capaz de fazer.

Ainda há quem se importe! A generosidade efectivamente transmitida com a mais banal das perguntas…